quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

POLICARPO QUARESMA SEUS IDEAIS DE BRASIL E SUAS FRUSTRAÇÕES

ROGÉRIO MARTINS DE CARVALHO

Este ensaio pretende analisar a insaciável trajetória do personagem, patriota, Policarpo Quaresma (personagem da obra “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto) na busca pelo resgate e construção da identidade nacional brasileira destacando suas frustrações e decepções em seu idealismo ufanista, nacionalista e patriota.

Publicado em 1914, a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, divide-se em três etapas: a primeira parte (Capítulo) da obra vem retratar o patriotismo exacerbado de Policarpo Quaresma, demonstrando seu nobre interesse por tudo o que é nacional, evidenciando, inclusive, o seu interesse pela valorização da cultura nacional. Na segunda parte, nos deparamos com a esperança de Policarpo Quaresma em construir um país melhor através da reforma da agricultura. E finalmente na terceira parte o personagem deixa o sítio do Sossego, e resolve se alistar para servir à pátria e lutar pela república. Vale ressaltar que é nesta parte da obra que Quaresma se desilude com tudo, é preso, acusado de traição e deixado na Ilha das Cobras a esperar pelo seu o seu triste fim.

[...] Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa (BARRETO, 2001, p. 25).

Como pode-se notar no trecho acima, Quaresma dedicou boa parte da sua vida aos livros, estudando-os para melhor conhecer o Brasil, e assim, poder encontrar a solução, as medidas progressistas para resolver os problemas do Brasil. Quaresma acreditava que conhecendo bem seu país por meio da leitura, seria assim, capaz de amenizar os males que o assolavam.

Policarpo Quaresma mantinha em casa uma ampla biblioteca cujos exemplares eram de autores brasileiros, Bento Teixeira, Gregório de Matos, Basílio da Gama, Macedo, José de Alencar e Gonçalves Dias, etc., no jardim continha somente flores de origem nacional, ao vestir-se, ocupava-se somente de tecidos e calçados produzidos no país, sua alimentação era, em sua maioria, constituída de produtos da agricultura nacional. Quaresma conhecia as terras do Brasil através dos livros.

O personagem, em seu patriotismo extremado, aproxima-se do ridículo quando propõe ao Congresso a substituição do português (tida como língua emprestada) pelo Tupi, considerada língua oficial do Brasil.

Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobre tudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo, diariamente, surgia azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma- usando do direto que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani, como língua oficial e nacional do povo brasileiro [...]. (Idem, 2001, p. 57)

Policarpo Quaresma, estudava o tupi e defendia que essa deveria ser a língua oficial do país, até que num certo momento, cometeu um equívoco e enviou um documento escrito em tupi ao Ministro, foi tratado como louco e internado em um sanatório. Após sair do sanatório, desiludido e com seus ideais de valorização da cultura nacional fracassados, resolve acatar aos conselhos da afilhada Olga, vende sua casa do Rio de Janeiro, comprando em seguida um sítio no interior. Deste momento em diante Quaresma planeja sua vida no campo, dedicando-se à agricultura.

Como pode-se perceber a ideologia de Policarpo Quaresma em relação à adoção do Tupi como língua oficial do Brasil, não vai conseguir convencer os governantes pois tal ideologia pertence unicamente ao seu imaginário movido por seu instinto de nacionalidade.

“[...] para que uma ideologia se realize como tal, ‘capture’ os sujeitos, provoque adesão, é preciso que as significações produzidas pelo seu discurso encontrem eco no imaginário dos indivíduos aos quais se dirige, isto é, é preciso que se dê uma certa adequação entre as significações desse discurso e as representações dos sujeitos” (MEYER apud OLIVEN 1992, p. 21).

Conforme pode-se comprovar no pensamento acima, para ter sua ideologia em relação ao Tupi produzindo eco, ou seja, sendo acatada e aceita pelos governantes, Quaresma precisaria de muito mais, que apenas do seu sonho de patriota, ele precisaria encontrar nos governantes o mesmo imaginário, o mesmo sonho, o mesmo desejo. Já que isso não era possível, uma vez que o imaginário dos governantes estava voltado apenas para os interesses políticos, não poderíamos esperar do sonho de Quaresma, outra coisa senão, frustração e decepção.

No Capitulo II ou segunda parte, nos defrontamos com um Policarpo Quaresma empenhado em investir na agricultura, otimista, e crente de que através da reforma agrícola obterá um país justo e igual para todos os brasileiros.

Consciente da inutilidade das suas tentativas de reforma política, cultural e econômica na capital, Policarpo se volta agora para o campo, almejando tirar da terra o alimento, e a fortuna de que necessita, e que as terras brasileiras certamente poderia lhe proporcionar. Quaresma em seu idealismo nacionalista acreditava agora, estar na agricultura à grandeza da pátria, acreditava na fertilidade das terras brasileiras, para ele as mais férteis de todo o mundo.

Era de vê-lo, coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agrícola (BARRETO, 2001, p. 85).

Como pode-se evidenciar no trecho acima, Policarpo Quaresma se dedicava com muito amor e esmero ao cultivo da terra, contando sempre com a ajuda de Anastácio, seu empregado, que lhe ajudara com o aprendizado da capina.

Desfrutando da tranquilidade da vida rural, Quaresma não se livra das perseguições políticas dos senhores da capital cuja preocupação maior era as questões políticas, o Tenente Antônio Dutra, aparece no sítio sossego com o intuito de examinar sobre a posição de Quaresma na política local, tamanha foi a sua insatisfação ao perceber a indiferença de Policarpo Quaresma sobre o assunto.

Após muita luta e muito trabalho contra todos os entraves das atividades agrícolas, inclusive o combate às saúvas, Quaresma consegue produzir alguma coisa, no entanto, mais uma vez a decepção bate à sua porta quando, ao vender seus produtos percebe que teve um lucro insignificante. Neste momento, ele passa a sentir na própria pele a desvalorização da atividade rural no Brasil. Diante de tamanha desvalorização do trabalho rural, Quaresma finalmente se atina para o fato de que os políticos pouco estão interessados com a vida lastimável em que vive o povo, e que estes não demonstram nenhum interesse em realizar reformas.

Desiludido com a irreverência dos políticos em relação à população, e perseguido pelos que detinham o poder, por ter negado seu apoio político, Policarpo Quaresma se vê impossibilitado de tocar seu projeto agrícola. A desilusão de Quaresma com todos estes acontecimentos que feriam seus ideais de patriota o faz pensar que suas tentativas agrícolas, o resgate à cultura, a valorização do tupi como língua nacional, as modinhas como música tipicamente brasileira, agora de nada adiantara, tudo isso, já não fazia mais nenhum sentido. Quaresma finalmente se dá conta da sua ingenuidade em imaginar e projetar um Brasil de patriotas cuja valorização do produto nacional fosse do interesse a todos.

Neste momento, é válido trazer o pensamento do Hall (2005, p. 62) quando ele diz que: “As nações modernas são, todas, híbridas”, para poder-se contrastar com a ingênua imaginação e desejo de Quaresma em projetar um Brasil em que todos se voltassem para a valorização de tudo o que é nacional, para dizer que Policarpo Quaresma em seu ufanismo patriota se encaminha para a decepção, uma vez que este espera de um Brasil (povo) híbrido um comportamento único, ou seja, todos valorizando de igual modo o produto nacional.

Mesmo diante de tamanha desilusão, Quaresma, com seu ufanismo não desiste dos seus ideais e passa a defender agora a ideia de que, o país precisa, não somente de uma reforma agrícola, mas de um governo sólido e inteligente que não se volte somente para seus próprios interesses, mas para as necessidades do país.

Para seu contentamento, Quaresma recebe através do seu empregado Felizardo a notícia de que está acontecendo um recrutamento forçado de pessoas para combater a esquadra que se revoltara e almejava derrubar o presidente Floriano Peixoto do poder. Deste momento em diante, Policarpo Quaresma vê na Revolta da Armada a oportunidade de realização do seu sonho de patriota, com um governo sólido e de grandes reformas. Policarpo então decide alistar-se se colocando à disposição da sua pátria amada.

Policarpo Quaresma, agora na condição de comandante decide se dedicar aos estudos de artilharia e técnicas de guerra, visando melhor servir a pátria, e visando também defender os ideais do presidente Floriano Peixoto, que ele acreditava ser os seus.
“[...] eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés... perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginais como isso me faz sofrer [...] Além do que penso que todo esse meu sacrifício tem sido inútil [...]” (Idem, p.182).

Como pode-se perceber no trecho supra citado, Quaresma dedica-se inteiramente à guerra e após haver matado um homem em nome da pátria se atina para o quão inútil foi seu sacrifício. Com seus ideais feridos, Quaresma desperta da sua cegueira ufanista em defesa da pátria e se dá conta de que a sociedade que o rodeava, não era condizente com a que ele idealizava.

Quaresma teve seu corpo ferido na guerra e após sua recuperação no sítio sossego, volta ao Rio de Janeiro alimentando a certeza de que havia sido convocado para por em prática suas ideias, e consequentemente seus ideais, no entanto, o que lhe aguarda no Rio, não é outra coisa senão o trabalho como um mero carcereiro.

Policarpo Quaresma é um homem com cede de mudança e desejo de justiça. Em seu trabalho como carcereiro, revolta-se com a maneira como são tratados os prisioneiros, resolve então escrever ao presidente fazendo um relato acerca dos atos de violência que presenciara nos cárceres, essa sua decisão o leva a ser considerado um traidor.

O Quaresma que havia dedicado a sua vida à pátria amada se encontra desiludido, já que todos os seus ideais tinham fracassado. Quaresma finalmente se dá conta de que o Brasil ideal, por ele tão sonhado, existia somente nos seus sonhos, percebeu quão grande foi a sua ingenuidade.

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferozes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. (Idem, p. 192).

Após sua longa e árdua caminhada na tentativa de resgatar a identidade nacional brasileira, este é o triste fim de Policarpo Quaresma, desiludido e profundamente decepcionado. Quaresma finalmente se dá conta de que todo o seu esforço, de nada adiantara e tudo o que fez em nome da sua pátria amada, não passara de uma série, ou melhor, de um encadeamento de decepções. Com seus ideais feridos, e condenado injustamente à morte Policarpo Quaresma tem, finalmente, seu nobre triste fim.

Para concluir este ensaio, é válido trazer um pequeno trecho da obra Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda que se utilizando do pensamento de Sófocles diz: “E todo aquele que acima da Pátria coloca seu amigo, eu o terei nulo” (SÓFOCLES apud HOLANDA, 1995, p. 141), pois acredita-se que estas palavras traduz muito bem o que fez Policarpo Quaresma que em nome da sua pátria amada, mesmo quando extremamente desiludido e decepcionado, a coloca acima de tudo, abrindo mão de tudo e de todos para defender sua pátria, abre mão inclusive da sua própria vida.

REFERÊNCIA

BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

OLIVEN, Ruben George. A Parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis: Vozes, 1992.

HALL, Stuart, A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaraeira Lopes Louro, 10 edição. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

HOLANDA, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. 26 ed. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

Um comentário:

  1. Que bela análise, professor. Me ajudou a relembrar aspectos muito importantes da obra de Lima Barreto e foi de grande utilidade.
    Muita obrigada! Parabéns pelo seu ótimo trabalho aqui no blog.
    Beijos

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