quarta-feira, 14 de março de 2012

A SIMBOLOGIA DA PEDRA NA POÉTICA DE ÂNGELA VILMA

ARILDA RUFINO DA ROCHA
ROGÉRIO MARTINS DE CARVALHO

O presente ensaio pretende analisar a simbologia da pedra enquanto metáfora do amor que atravessa os tempos na poética da escritora baiana Ângela Vilma . Antes de andarmos por entre as pedras, semeadas pelos caminhos desse amor cantado em versos pela escritora, faz-se necessário traçar um pouco da sua história para que o leitor tenha a possibilidade de, ao longo desse caminhar, ir colecionando pedras. Pedras que se fundam em sabedoria e poeticidade.

Ângela Vilma Santos Bispo nasceu no interior da Bahia, mais precisamente em Ubiraitá. Ainda muito pequena, no ano de 1971, aos quatro anos de idade, mudava-se para uma antiga cidade mineradora da Chapada Diamantina, chamada Andaraí. Tendo como pais Terezinha Santos Bispo e Albino Desidério Bispo, e uma irmã, um ano mais velha, Cláudia Maísa Bispo dos Anjos, Ângela era a mais introvertida nas brincadeiras das meninas. Seu medo de fotografia deixava-a assustada, saindo cada vez mais tímida a cada foto que tirava.

No ano de 1986, iniciava o trabalho como professora de datilografia. Em 2001, começou a trabalhar como professora de literatura em Paripiranga. Até hoje, dedica sua vida a escrever sobre obras importantes do famoso escritor Herberto Sales, também nascido em Andaraí, Bahia, no dia 21 de setembro de 1917. Em 2007, iniciava o trabalho na Universidade do Estado da Bahia - UNEB, também como professora de literatura no Campus XXIV, em Xique - Xique, interior da Bahia, atualmente mora em salvador, desde 07 de agosto de 2004. Além de Poemas para Antônio, já publicou outros quatro livros: Poemas escritos na pedra, Beira- vida, Ela, João e o terno e A tessitura humana da palavra: Herberto Sales contista. Atualmente, continua lecionando na área de literatura, na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).

Após fazermos esse mergulho por algumas partes desse rio profundo, que é a vida da autora, começamos a compreender como a imagem da pedra está presente em Ângela Vilma desde muito cedo. Esse deslocamento para junto da Chapada Diamantina, onde as estruturas rochosas que cercam o ambiente contrastam com a pequenina Pepita, de mãos pequenas e cabelos longos, de olhos rápidos e escrita audaciosa, capaz de penetrar na vida do leitor através da sua poética que, ao mesmo tempo, que é água escorrendo pelos dedos, é pedra que se funde em sabedoria, sensibilidade e beleza.

Ricardo Nonato Silva (2011:1), ao discorrer sobre a palavra pedra na obra da autora, assim a descreve: “a palavra ‘pedra’, presença insistente ao longo do livro, delineia, desde seu primeiro poema, o sentido de uma espera que atravessa os tempos e se faz contemplativa”. Pedra, palavra recorrente na poética da autora, não passa despercebida aos olhos de um leitor atento, revelando essas novas dimensões e situações de que nos fala Massaud Moisés, despertando a curiosidade de analisar, de perto, qual a ligação entre pedra, o eulírico e o amor, já que o eulírico se desnuda ao falar de um amor que, como a pedra, resiste ao tempo.

Todos esses detalhes acabam nos fornecendo um tipo único de experiência, justamente pelo fato de produzir novas formas de vida possível, e diferente do que estamos acostumados a viver, por conta desse trabalho com a imaginação que a poesia, enquanto elemento da literatura é capaz de nos proporcionar, conforme aponta Moisés:

Ora, a Literatura fornece um tipo singular de experiência, porquanto trabalha com a imaginação, que produz formas de vida possível e diferente da nossa. E tal experiência, colhida no contacto com a imaginação criadora do escritor, enriquece nossa maneira de ver a realidade, uma vez que a Literatura, caminhando antes da vida, lhe vai insinuando os rumos que pode trilhar. Desse modo, o homem se aperfeiçoa com a assimilação de experiências ficcionais antecipadoras ou reveladoras de dimensões e situações para além de seu mundo comum. (MOISÉS, 2003, p. 43)

Publicada em 2010, a obra Poemas para Antônio reúne uma coletânea de quarenta e três poemas, a princípio dirigidos a um destinatário específico, de nome Antônio. No entanto, quando adentramos na leitura da obra, logo percebemos que Antônio assume um lugar fictício, e os poemas a ele endereçados passam a ser de todo e qualquer leitor, uma vez que o eulírico de cada um vai tratar de algo inerente ao homem, a saber, o amor.
Ao abrimos o livro, logo nos deparamos com pedras que começam a despencar do precipício amor, conduzindo-nos a uma viagem que não acabará com essa primeira chuva de pedras que enfeitam o encontro. Nessa longa estrada em busca de Antônio: “[...] No ritmo das pedras que se eternizam / Perto das águas, em ti me detenho. / E como as estradas, teu amor me acolhe / no abandono mais triste, mais sereno”.

É possível percebermos nos versos acima, a eternização do amor a partir da imagem da pedra, enquanto elemento sólido, resistente às intempéries do tempo, que é constantemente banhada por ondas de solidão e desilusões advindas do ato de amar, sendo, portanto, a pedra, símbolo da própria poesia. Ângela Vilma trata de um amor que, como as pedras, tocadas por incontáveis ondas, a cada dia vão se renovando num ritmo frenético, ao alimentar-se da serenidade de um isolamento, que abre caminhos para que esse amor torne-se firme, consistente. E coberto por limos de esperança, ainda que abrindo pequenas fissuras, não morra jamais. Somos nós os vários Antônios a bailarem ao som de Anfíon, nesse ritmo das pedras que se eternizam através da memória, da vida e do amor.

Como já citado anteriormente, a figura da pedra se apresenta como símbolo da própria poesia [...]. Reiteradas vezes, esse símbolo se apresenta aos olhos do leitor, embora, às vezes, veladamente [...]. Segundo a mitologia grega, Anfíon era um músico cuja melodia atraía para si até mesmo as pedras; portanto, foi dessa maneira, através do som de sua flauta, que tal personagem edificou os muros da cidade de Tebas: pedra sobre pedra. Assim como Anfíon, o poeta com seu canto (“flauta”) doma o acaso (“raro animal”) e, do nada (do “deserto” ou da folha em branco), ergue uma cidade (o próprio poema). (MORAES, 2010, p. 9)


No poema Cansaço, deparamo-nos novamente com mais uma pedra: “Me esperavas como uma pedra/ retida no deserto, regresso/ ao que um dia foste [...]”. Neste poema, encontramos um eulírico que se mostra cansado, queixando-se da inércia do amado frente ao seu amor, de modo que este, como uma pedra estática, não se move diante desse amor, contentando-se, portanto, com algo já vivido, com aquele amor que, há tempos, como uma pedra, retida no deserto gélido da certeza de ser amado, não sente mais necessidade de expressar. E apenas espera, permanecendo-se cálido diante do amor. Aqui, a pedra representa a frieza do amado, o silêncio perante um amor que para sempre o pertencerá. Ao queixar-se da inércia do seu amado, percebemos que, no eulírico, há um desejo latente e auspicioso em reviver um amor, que ainda permanece o mesmo.

Em Epitáfio, percebemos um eulírico que se mostra desiludido diante da dureza, e rigidez do amado: “Pedra: tudo que és./ E eu que pensava encontrar água,/ nas tuas mãos petrificadas/ morro outra vez”. Percebemos, aqui, a busca incansável do eulírico por esse amor idealizado como único, como vida que se intensifica a cada uma dessas buscas. Buscas essas que se tornam incansáveis como as correntezas de um rio permanente. Mas a dureza do amado significa a morte, a tépida certeza de que não há volta, que os caminhos se diluem.

E as mãos que, petrificadas, destroçam um sentimento tão intenso, são as mesmas que sufocam o ser, que prefere a morte a ter que viver sem esse amor, restando o desabafo das palavras, que são pedras a rolar nos caminhos da poesia, essa figura excêntrica da solidão humana:

[...] a figura da Pedra [...] é constantemente comparada com a Palavra, uma vez que ambas são elementos fundadores. Portanto, pode-se dizer que [..] na imagem da Pedra há uma representação e um símbolo de sua própria poesia: dura e fria, mas, ao mesmo tempo, extremamente forte e firme. (MORAES, 2010, p. 4)

No poema A despedida, o eulírico aponta para a ideia de que, após a despedida, as pedras (Natureza) permanecem, restando ao homem contemplá-las. Dito isto, percebemos que a pedra surge mais uma vez na poética de Ângela Vilma como elemento de algo que resiste ao tempo. Daí percebemos que, como a pedra, o amor do eulírico persiste, mesmo após as despedidas, onde alma e pedra se juntam numa relação muito íntima, cultivando cheiros e sabores, conforme observamos no pensamento a seguir:

Tradicionalmente, a pedra ocupa um lugar de distinção. Existe entre a alma e a pedra uma relação estreita. Segundo a lenda de Prometeu, procriador do gênero humano, as pedras conservaram um odor humano. A pedra e o homem apresentam um movimento duplo de subida e de descida. O homem nasce de Deus e retorna a Deus. A pedra bruta desce do céu; transmutada ela se ergue em sua direção. (...) A pedra bruta é considerada ainda como andrógina, constituindo a androginia a perfeição do estado original (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1991, p.696 apud MORAES, Fabrício)


De acordo com o pensamento supracitado, pedra e homem fazem parte de um mesmo ciclo, um ocupando o lugar do outro, num movimento de indas e vindas, assim como o amor por Antônio, alimentado por um eulírico que submerge a cada dia para o outro existir, e existindo. Esse amor permanecerá submerso na alma pelo decorrer de toda a vida. E entre abandonos, despedidas e crueldades, nem imergindo deixará de existir:

Das crueldades

Resgatar em teus olhos a ausência
Vestida da mais ofensiva distância
E golpeá-la, incisiva, nessa dança
De seres mortos, melancólicos,
Jogados ao mar, as pedras
Fétidas e submersas. [...] (VILMA, Ângela 2010. p. 34)

No poema Das crueldades, conforme vemos acima, a pedra surge como símbolo de sepulcro para onde o eulírico deseja lançar as ausências, e as mais ofensivas distâncias advindas do seu amado. É para o fundo do mar, junto às pedras fétidas, nos lodos do esquecimento, que deve ser lançado esse amor de ausências. E essas pedras (lembranças) mesmo permanecendo submersas, para sempre ainda continuam vivas nesse rio, de um amor que se eterniza em palavras e esperas, o que aparece na condição de ironia, lançar e ao mesmo tempo recolher para si, um amor que não se vai com o tempo. E “A palavra, assim como a pedra, pode servir de arma – através da “lâmina ambígua” da ironia”. (MORAES, 2010, p. 1)

Ângela Vilma, a Pepita, poetisa das pedras da Chapada, através de uma linguagem encantadora e de uma sutileza que impressiona, como as ondas que se quebram sobre a praia das nossas desilusões, arrebenta-nos por entre as pedras dos nossos amores, pois, conforme nos aponta o pensamento a seguir:

[...] trabalha à sua maneira, à maneira que [...] considera mais conveniente à sua expressão pessoal. Do mesmo modo que [...] cria a sua mitologia e sua linguagem pessoal, [...] cria as leis de sua composição. Do mesmo modo que [...] cria seu tipo de poema, cria seu conceito de poema, a partir daí, seu conceito de poesia, de literatura, de arte. Cada poeta tem a sua poética. (MELO NETO, 2003. p.724 apud MORAES, Fabrício).


Diferente do discurso de que o amor tem se tornado uma temática desgastada ao longo dos tempos, Ângela Vilma vai criando sua mitologia, sua composição e sua linguagem pessoal para deixar claro que o amor ultrapassa o próprio tempo e, como as pedras, que ora tornam-se pesadas, cálidas, ora gélidas ou distantes, não se corrói tão facilmente, nem mesmo entre Despedida ou Cansaço Das Crueldades, estaremos eternizados, nem que seja como um Epitáfio. E quem de nós não gostaria de ser para sempre Antônio?

REFERÊNCIAS:

MOISÉS, Massaud. A criação Literária. 17ª ed. São Paulo: Cultrix, 2003.

MORAES, Fabrício Tavares de. A simbologia da pedra na poética de João Cabral de Melo Neto. Mafuá, Florianópolis, ano 8, n. 13, março 2010.

VILMA, Ângela. Poemas para Antônio. V783 (Coleção Cartas Bahianas). P55 Edições, Salvador, 2010.

SILVA, Ricardo Nonato Abreu. São para você esses poemas. 2011.

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